quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Sua empresa não é uma família — e talvez seja melhor assim

 

É comum ouvir empresários e gestores dizerem: “aqui somos uma família”. A frase parece positiva. Transmite proximidade, confiança, pertencimento e cuidado com as pessoas.

Mas será que uma empresa deve realmente funcionar como uma família?

Uma reflexão recente de Reed Hastings, cofundador da Netflix, recoloca essa questão no debate. A origem dessa visão está em um dos períodos mais difíceis da história da empresa. Em 2001, após o estouro da bolha da internet, a Netflix enfrentou dificuldades financeiras e precisou reduzir aproximadamente um terço de sua equipe. Anos depois, Hastings passou a utilizar aquela experiência para explicar uma das ideias centrais da cultura organizacional da companhia: uma empresa deveria se parecer mais com uma equipe esportiva de alto desempenho do que com uma família.

A lógica é desconfortável, mas interessante para quem estuda Administração.

Em uma família, o vínculo tende a existir independentemente do desempenho. Uma empresa, por outro lado, possui objetivos, clientes, custos, responsabilidades e resultados que precisam ser alcançados. Pessoas são fundamentais para uma organização, mas isso não elimina a necessidade de desempenho, competência e responsabilidade.

Como administrador, considero que o problema não está em construir relações humanas dentro das empresas. Muito pelo contrário. Respeito, confiança, diálogo, reconhecimento e um ambiente saudável são fundamentais para qualquer organização que pretenda prosperar.

O equívoco começa quando confundimos humanização com ausência de cobrança.

Uma boa organização precisa deixar claro o que espera das pessoas, oferecer condições para que elas desempenhem bem suas funções, desenvolver competências, dar feedback e reconhecer resultados. Mas também precisa enfrentar situações em que o desempenho permanece abaixo do necessário.

Isso vale especialmente para pequenas empresas.

Em muitos pequenos negócios brasileiros, relações profissionais acabam se misturando com amizade, parentesco ou vínculos pessoais. O empresário sabe que determinada função não está sendo bem executada, mas evita conversar. Adia uma decisão, tolera repetidamente resultados insuficientes e, muitas vezes, transfere a carga de trabalho para aqueles que entregam mais.

Nesse momento, o problema deixa de ser apenas de uma pessoa. Torna-se um problema de gestão.

Entretanto, a metáfora da equipe esportiva também exige cuidado. Buscar alto desempenho não significa transformar pessoas em peças descartáveis nem justificar demissões constantes. Uma organização saudável não deveria escolher entre resultado ou pessoas. O verdadeiro desafio da gestão é construir resultados por meio das pessoas, com critérios claros, responsabilidade e respeito.

Talvez, portanto, a melhor pergunta não seja se uma empresa deve ser uma família ou um time.

A pergunta é:

Sua empresa consegue cuidar das pessoas sem deixar de cobrar resultados?

Empresas precisam de relações humanas fortes. Precisam de confiança. Precisam de pessoas que desejem permanecer e crescer dentro delas.

Mas também precisam lembrar por que existem.

Acolher pessoas faz parte de uma boa gestão. Desenvolvê-las também. Cobrar desempenho, quando necessário, igualmente.

Esse equilíbrio talvez seja uma das tarefas mais difíceis de quem administra.


Fonte da pauta: Fortune, por Preston Fore, repercutida pelo InfoMoney em 19 de agosto de 2026. (Aqui)

A experiência relatada por Hastings sobre a redução da equipe em 2001 e a posterior construção da filosofia de “time, não família” também é abordada em No Rules Rules: Netflix and the Culture of Reinvention, de Reed Hastings e Erin Meyer.

Prof. Dr. Rubens Savaris Leal - Coordenador do Projeto NAF UFRR / Coordenador Grupo Interdisciplinar de Negócios Amazônicos - GINA CNPQ

MEI: quando crescer começa a virar um problema

 

A discussão sobre o aumento do limite de faturamento do Microempreendedor Individual (MEI) ganhou mais um capítulo. A votação da proposta que pretende elevar o teto da categoria deverá ficar para depois das eleições de outubro, diante da falta de acordo no Congresso.

Atualmente, o MEI pode faturar até R$ 81 mil por ano, o equivalente a uma média de R$ 6.750 mensais. Entre as propostas em discussão está a elevação desse limite, chegando a R$ 140 mil anuais.

O impasse, entretanto, tornou-se maior porque parlamentares também defendem a revisão das faixas do Simples Nacional, cujo limite atual é de R$ 4,8 milhões anuais, com proposta de ampliação para até R$ 8 milhões. O Ministério da Fazenda resiste à mudança, principalmente em razão dos possíveis impactos sobre a arrecadação.

Até aqui, temos uma discussão tributária e fiscal. Mas acredito que existe outra questão que merece atenção: o que acontece com o empreendedor quando seu negócio começa a crescer?

Esse talvez seja o ponto mais importante desse debate.

O pequeno empreendedor trabalha para conquistar clientes, aumentar suas vendas, investir, gerar renda e fazer seu negócio prosperar. Crescer deveria ser uma consequência natural desse esforço. Entretanto, em determinados momentos, nosso sistema tributário e burocrático acaba criando uma situação contraditória: o empreendedor começa a se preocupar justamente porque está vendendo mais.

Quando se aproxima do limite do MEI, aquilo que deveria representar uma boa notícia pode significar desenquadramento, aumento de custos, novas obrigações tributárias e maior complexidade administrativa.

E aqui existe uma questão que considero fundamental: faturamento não é lucro.

Um pequeno comércio pode movimentar valores consideráveis durante o ano e, ao mesmo tempo, operar com margens reduzidas, custos elevados de mercadorias, aluguel, energia, transporte e outros gastos necessários para manter sua atividade. Por isso, analisar a realidade de um pequeno negócio exclusivamente pelo seu faturamento nominal pode produzir distorções.

Isso não significa defender que empresas permaneçam indefinidamente como MEI.

O MEI foi criado para facilitar a formalização e oferecer uma porta de entrada para quem começa pequeno. É natural que um empreendimento que cresce também evolua em sua estrutura, organização, controles e contribuição tributária.

O problema está em como fazemos essa transição.

Precisamos construir um ambiente no qual passar de MEI para microempresa seja percebido como uma etapa positiva do desenvolvimento empresarial, e não como uma ameaça. O sistema deveria funcionar como uma escada de crescimento, com transições graduais e previsíveis, e não como um muro que aparece quando o negócio começa a prosperar.

Essa discussão também precisa considerar a atualização dos limites ao longo do tempo. Custos, preços e faturamento nominal aumentam com a inflação. Manter parâmetros por longos períodos sem revisão significa, na prática, reduzir progressivamente o espaço econômico disponível para esses pequenos negócios.

É evidente que qualquer alteração precisa considerar seus efeitos sobre as contas públicas e preservar a finalidade dos regimes simplificados. Também é necessário impedir que estruturas empresariais maiores utilizem artificialmente benefícios destinados aos pequenos.

Mas responsabilidade fiscal e incentivo ao empreendedorismo não deveriam ser tratados como objetivos incompatíveis.

O Brasil precisa de um sistema capaz de permitir que o empreendedor comece pequeno, formalize-se, organize-se, cresça e continue crescendo dentro da formalidade.

Quando um empreendedor começa a evitar uma venda, postergar um investimento ou controlar seu crescimento simplesmente porque ultrapassar determinada faixa pode produzir um salto significativo de custos e burocracia, temos um sinal de que o desenho das regras merece ser discutido.

Por isso, a questão é maior do que decidir se o limite do MEI deve passar de R$ 81 mil para R$ 140 mil.

A pergunta que deveríamos fazer é outra:

Estamos construindo um sistema que ajuda o pequeno empreendedor a crescer ou um sistema que faz com que ele tenha medo de crescer?

Enquanto a discussão continua no Congresso, nada muda para quem é MEI: o limite vigente permanece em R$ 81 mil anuais. A eventual ampliação depende de aprovação legislativa.


Fonte: Agência O Globo/InfoMoney. Falta de acordo adia para depois das eleições votação de reajuste no limite do MEI. Publicado em 19 de agosto de 2026.

Leia a matéria original no InfoMoney

Prof. Dr. Rubens Savaris Leal - Coordenador do Projeto NAF - UFRR

Sua empresa não é uma família — e talvez seja melhor assim

  É comum ouvir empresários e gestores dizerem: “aqui somos uma família” . A frase parece positiva. Transmite proximidade, confiança, perten...