O risco tem dono: a solidão de quem empreende
Existe uma diferença entre trabalhar em uma empresa e ser dono dela que nem sempre aparece no organograma, no crachá ou nas reuniões de equipe: a exposição ao risco não é a mesma.
Imagine uma situação extrema: a empresa quebra amanhã.
O gerente atualiza o currículo.
O funcionário começa a procurar outro emprego.
O contador encerra as últimas obrigações, transmite as declarações necessárias e fecha aquele capítulo profissional.
O fornecedor apresenta a última fatura e tenta receber o que lhe é devido.
Cada um será afetado. Alguns, inclusive, poderão sofrer consequências pessoais e financeiras importantes. Mas existe alguém que permanece no centro do problema: o empresário.
Ele pode sair sem empresa, sem renda, com dívidas, contratos a encerrar, fornecedores para pagar, obrigações trabalhistas e tributárias e, dependendo da situação, anos de patrimônio e trabalho comprometidos.
É aqui que aparece uma característica pouco discutida do empreendedorismo: o risco tem dono.
Pertencer não é assumir o mesmo risco
Uma empresa pode — e deve — construir senso de pertencimento.
As pessoas podem vestir a camisa, acreditar no projeto, torcer pelo sucesso da organização, celebrar resultados, defender a marca e desenvolver vínculos genuínos com colegas e com o próprio negócio.
Tudo isso é importante.
Mas existe uma diferença entre pertencer ao projeto e ser proprietário do risco.
Posso trabalhar ao seu lado. Posso torcer pelo seu bem. Posso desejar que sua empresa cresça, elogiar suas decisões e comemorar suas conquistas.
Mas, quando a situação aperta, uma coisa é estar perto do fogo; outra é estar dentro dele.
E quem está no fogo é você, empresário, empreendedor.
Não espere que todos sintam como você
Talvez um dos erros de quem empreende seja esperar que funcionários, gestores ou prestadores de serviços sintam a empresa exatamente da mesma maneira que o proprietário.
Provavelmente não sentirão.
E isso não significa falta de comprometimento, gratidão ou profissionalismo.
A relação é simplesmente diferente.
Para um empregado, aquela organização representa trabalho, renda, carreira, relações profissionais e, muitas vezes, parte importante de sua identidade.
Para o empreendedor, além de tudo isso, podem estar envolvidos capital próprio, garantias pessoais, endividamento, patrimônio, reputação e anos dedicados à construção do negócio.
São posições diferentes diante do mesmo empreendimento.
Por isso, cobrar comprometimento é legítimo. Cobrar responsabilidade também. Criar uma cultura na qual as pessoas se sintam parte do negócio é desejável.
Mas esperar que todos carreguem emocional e financeiramente o mesmo peso do proprietário pode gerar frustração.
Quando todos vão embora
Quando a empresa prospera, o sucesso tende a ser compartilhado.
Há salários, comissões, promoções, novos contratos, fornecedores crescendo junto, reconhecimento e celebrações.
Quando a empresa fracassa, entretanto, ocorre um movimento diferente.
Cada pessoa começa, legitimamente, a proteger sua própria vida.
O funcionário procura outra oportunidade.
O gerente procura outra posição.
O prestador procura outro cliente.
O fornecedor tenta receber.
O contador encerra as obrigações daquele CNPJ.
E o empresário?
O empresário permanece diante das consequências das decisões tomadas ao longo do caminho.
É nesse momento que a expressão ganha sentido:
o risco tem dono.
Isso não significa empreender sozinho
Reconhecer essa realidade não significa desconfiar das pessoas ou acreditar que funcionários não se importam com a empresa.
Muito pelo contrário.
Uma organização saudável precisa de confiança, delegação, profissionalização da gestão, participação, reconhecimento e compartilhamento dos resultados.
O empresário que acredita que somente ele pode fazer tudo também coloca o negócio em risco.
A questão é outra: delegar a gestão não significa delegar a responsabilidade de ser proprietário.
É possível dividir decisões.
É possível dividir resultados.
É possível dividir responsabilidades.
É possível construir um sonho coletivo.
Mas determinados riscos permanecem concentrados naquele que decidiu empreender.
Talvez por isso administrar uma empresa exija mais do que conhecer vendas, custos, fluxo de caixa ou estratégia. Exige compreender a própria condição de empresário.
Você precisa ouvir sua equipe.
Precisa confiar nas pessoas.
Precisa profissionalizar a gestão.
Precisa aprender a delegar.
Precisa reconhecer quem caminha ao seu lado.
Mas também precisa saber que, quando as circunstâncias mudarem, cada pessoa tomará decisões considerando seus próprios riscos e interesses.
Isso é natural.
Portanto, não espere que todos sintam exatamente o que você sente.
Muitos podem acreditar no seu sonho.
Muitos podem ajudar a construí-lo.
Muitos podem comemorar quando ele der certo.
Mas uma coisa é estar perto do fogo. Outra é estar dentro dele.
E, no mundo dos negócios, quem decidiu entrar no fogo foi você.
O risco tem dono.